Flecha do Dia: O Bastão que Fala
O Bastão que Fala é uma das medicinas mais profundas que conheço. Já falei sobre ele antes, mas como as cartas começam a se repetir, sinto que devemos prestar uma atenção especial nesse momento. É uma fase de aprendizado e aprofundamento sobre esse conceito, ou talvez uma lição que passou despercebida anteriormente, voltando para nos reforçar o aprendizado.
O Bastão que Fala nos ensina sobre o sagrado ponto de vista e o valor da escuta ativa. Ele simboliza uma verdade simples e pura, que devemos expressar a partir do coração. Esse bastão é um objeto relativamente simples, apenas um pedaço de madeira consagrado à verdade. Não é algo que se compra; ele deve ser encontrado na natureza, de forma intencional. Quando estamos prontos para encontrá-lo, ele aparece – seja em uma caminhada ou em um momento de conexão.
Algumas pessoas optam por decorá-lo com medicinas pessoais, como cristais, peles, dentes de animais ou cores que ressoem com elas. Esse ato de decoração carrega o bastão com a essência de quem o utiliza, tornando-o um símbolo poderoso de autenticidade e expressão.
Medicina do Bastão: Verdade e Escuta
A primeira medicina do Bastão que Fala é a verdade. Quem segura o bastão o faz próximo ao coração, sem se preocupar com o que vai dizer, mas expressando sua verdade. É triste perceber que, nos dias de hoje, muitas vezes precisamos de um objeto assim para nos sentirmos seguros em expressar nosso coração. As pressões sociais e o medo de julgamento nos levam a criar armaduras, bloqueando a nossa voz.
Dentro do xamanismo, muitas doenças são vistas como resultado de um “coração fechado” ou palavras não ditas. São sentimentos guardados ou palavras ditas em momentos de raiva, que acabam causando arrependimentos. Quando falamos algo que não ressoa com nosso coração, nossas palavras se tornam uma fonte de energia negativa, tanto para nós quanto para os outros.
As palavras têm poder – são a essência da criação. O Bastão que Fala nos convida a retornar a essa essência, expressando o que sentimos. Uma criança, por exemplo, não precisa de palavras para nos mostrar o que sente, pois ela ainda não conhece o medo. Esse véu, infelizmente, é colocado sobre ela com o tempo. Expressar-se plenamente, com respeito ao ponto de vista sagrado do outro, não nos torna vulneráveis; pelo contrário, nos torna humanos.
A Escuta Ativa e o Respeito ao Outro
A segunda medicina do Bastão que Fala é para quem não o segura, e representa a escuta ativa. Escutar o sagrado ponto de vista do outro significa ouvir sem julgar, sem pensar na resposta ou discordar internamente. Muitas vezes, quando alguém fala, já estamos com a mente ocupada em como responder, ou até mesmo em outro lugar. A escuta ativa nos convida a estar presentes.
Assim como a expressão plena é um caminho para o equilíbrio, a escuta ativa é a outra rota. Ambas, juntas, sustentam a harmonia entre o respeito e a compreensão mútua, como nas energias de ida e pingala na ioga, que alimentam o caminho sagrado de equilíbrio e unidade.
Escutar com respeito não implica concordância. Podemos ouvir o outro sem necessariamente aceitar ou adotar seu ponto de vista. O respeito ao ponto de vista sagrado do outro significa entender suas raízes, a história e o contexto que o formaram. Exercitar essa empatia é reconhecer que, no fundo, somos todos parte de uma mesma teia de vida.
A Medicina do Cavalo
O animal do dia é o cavalo sagrado, símbolo de poder e manifestação. A domesticação do cavalo é tão significativa para a humanidade quanto a descoberta do fogo ou a invenção da roda. Antes de conhecermos os cavalos, nossa força e velocidade eram limitadas. Com o cavalo, tornamo-nos livres, velozes, como o vento. Na tradição Lakota, por exemplo, o cavalo era chamado de “grande cachorro,” refletindo o respeito e admiração por sua força.
Espiritualmente, o cavalo está associado às jornadas nos planos espirituais, às quatro direções sagradas. Na sabedoria xamânica, cada cavalo representa uma direção: o vermelho traz inocência, o branco traz sabedoria, o preto introspecção e o amarelo a conexão com o espírito. Eles nos permitem navegar por esses caminhos, recordando o que já fomos e onde já estivemos.
Há um exercício de constelação familiar que sugiro e que abre portas ao autoconhecimento. Ele envolve olhar para trás, para a nossa história, talentos, desafios, e até para nossos ancestrais. Toda nossa árvore genealógica carrega a força que nos constitui. Não somos apenas a reencarnação dos nossos antepassados; somos a manifestação viva de toda a sua força.
Reflexão Final
Essas duas cartas, o Bastão que Fala e o Cavalo, nos convidam a reconhecer e honrar nossa história e a dos outros. Quando olhamos para os desafios e triunfos de quem veio antes, começamos a resgatar a essência da nossa própria força. Se somos o sonho dos nossos ancestrais, somos também a manifestação de sua caminhada.
Gratidão a quem ficou até aqui. Que sua semana seja iluminada pela verdade e pelo respeito aos caminhos de todos.